


DADOS TÉCNICOS DA FOTO
Título: Amarelo da Observação no Caos
Ano: 2018
Suporte: Papel fotográfico 236 g/m²
Dimensão: 45 cm x 30 cm
Câmera: Nikon D7100
Objetiva: 18mm / 140mm
Abertura (Diafragma): f/22
Distância Focal: 23 mm
Velocidade (Obturador): 1/20
ISO: 100
Descrição da fotografia
Na Avenida Nossa Senhora do Carmo, um edifício amarelo resiste em meio ao cinza da pressa. Sua cor viva se ergue como farol, iluminando uma cena marcada pela correria dos transeuntes e pelo ruído da cidade. A cor não é apenas detalhe arquitetônico: é presença, é pausa, é lembrança de que no meio da confusão sempre há algo que chama para contemplar.

Essa imagem ecoa a experiência da atenção dispersa, como a que muitos enfrentam no turbilhão da mente. Entre vozes internas e estímulos externos, a dificuldade em se concentrar pode ser avassaladora. Mas o amarelo, aqui, aponta um caminho: escolher um ponto, uma cor, uma âncora no caos, e permitir que a mente respire. Como na vida, a superação se dá quando conseguimos observar e encontrar foco, mesmo em meio à desordem.
E há algo quase teimoso nesse amarelo que insiste em existir, mesmo espremido por fios, buzinas, pressa e desatenções. Ele parece acenar para quem passa: “olha pra cá”, num gesto simples que interrompe o piloto automático. A cidade continua correndo, atropelando passos e pensamentos, mas o prédio segue ali — firme, luminoso, quase debochado do cinza que tenta engolir tudo. É como se dissesse que a concentração não nasce do silêncio ideal, mas da capacidade de enxergar um ponto fixo mesmo quando tudo ao redor gira sem controle. O amarelo vira guia, vira lembrança de que ainda é possível escolher onde pousar o olhar, mesmo quando a mente tropeça em si mesma. E é nesse instante breve — esse encontro entre cor e caos — que a vida revela sua pequena clareza: observar também é sobreviver.









História do Local
A Avenida Nossa Senhora do Carmo, antes conhecida como Travessa do Carmo e popularmente chamada de Beco do Sarapatel, guarda um passado controverso e simbólico. Na década de 1930, foi cenário de reportagens que denunciavam o consumo de maconha na cidade, então associada à marginalidade e à repressão policial. O bairro de São José, onde se insere a avenida, era um espaço de intenso comércio e sociabilidade popular, marcado por contrastes entre ordem e desordem.
Com o tempo, a via se transformou. Hoje, a Avenida do Carmo conecta a Basílica e Convento de Nossa Senhora do Carmo ao Cais de Santa Rita, servindo como um eixo de passagem vital do centro recifense. Em março de 2021, tornou-se também palco da maior faixa de pedestres da cidade, com 27 metros de largura, um gesto urbano de cuidado com a travessia humana em meio ao tráfego.
Assim como o prédio amarelo que rompe a monotonia da paisagem, a avenida carrega em si marcas de resistência e reinvenção. O que antes era associado à exclusão e ao estigma, hoje se ressignifica como espaço de fluxo, memória e sobrevivência no coração do Recife.



